O primeiro-ministro submeteu esta quinta-feira à Presidência da República os nomes do novo Executivo governamental socialista. O elenco escolhido por José Sócrates conta com oito novos ministros e apresenta alterações em dez pastas - Defesa, Justiça, Economia, Agricultura, Obras Públicas, Ambiente, Trabalho, Educação, Cultura e Assuntos Parlamentares.Uma equipa de 16 governantes. Oito novos ministros. Cinco mulheres escolhidas para cargos governativos. Uma estratégia de abertura a personalidades independentes sem deixar cair o núcleo duro do primeiro-ministro nas pastas de Estado. São estes os traços essenciais do elenco que hoje chegou à secretária do Presidente da República, Cavaco Silva, quase um mês após o escrutínio para o Parlamento.O difícil processo de reforma da Administração Pública e a correcção do défice das contas públicas para o valor mais meridional do pós-25 de Abril - 2,58 por cento do PIB em 2007 - foram algumas das marcas deixadas por Teixeira dos Santos. Até ao advento da crise económica e financeira, quando os pacotes de apoio à economia empurraram o desequilíbrio orçamental para níveis que poderão atingir os 7,5 por cento do produto interno bruto, embora o Ministério das Finanças mantenha uma estimativa de 5,9 por cento em 2009.
Ana Jorge, a sucessora do polémico Correia de Campos na pasta da Saúde, Rui Pereira, na Administração Interna, Pedro Silva Pereira, na Presidência do Conselho de Ministros, e Mariano Gago, na Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, são os demais nomes que se mantêm nos mesmos cargos. Aos quais se junta o nome do porta-voz do PS, João Tiago Silveira, chamado à Secretaria de Estado da Presidência do Conselho de Ministros.
Dez anos depois da última passagem por funções governativas, o líder parlamentar cessante do Partido Socialista, que é substituído por Francisco Assis, toma em mãos a pasta da Justiça, até agora ocupada por Alberto Costa. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, Alberto Martins assumiu-se como um rosto da ala esquerda socialista enquanto titular da pasta da Reforma do Estado e da Administração Pública no Governo de António Guterres, a partir de 1999. De entre as missões a recaírem sobre os ombros de Alberto Martins destaca-se a revisão ordinária da Constituição da República. A passagem do novo ministro da Justiça pela liderança do grupo parlamentar socialista fica cunhada pelo impasse sobre a nomeação do substituto de Nascimento Rodrigues na Provedoria da Justiça, num braço-de-ferro parlamentar travado com o social-democrata Paulo Rangel.
O novo ministro da Economia, Inovação e Desenvolvimento, a pasta acumulada por Teixeira dos Santos na esteira da demissão de Manuel Pinho, é José Vieira da Silva. Outro dos rostos da ala esquerda no seio dos socialistas, Vieira da Silva deixa a pasta do Trabalho e da Solidariedade Social para abraçar um Ministério com poderes reforçados face ao passado - desde logo a centralização dos fundos comunitários, que até agora pertenciam à esfera de competências do Ministério do Ambiente. Enquanto ministro com a tutela da Segurança Social, coube a Vieira da Silva desencadear uma reforma alargada naquele sector do Estado. A revisão da Lei de Bases da Segurança Social foi uma das grandes propostas que teve luz verde na anterior legislatura.
São seis as personalidades convocadas pela primeira vez para funções governativas. As estreias concretizam-se em algumas das pastas mais desgastadas ao longo dos quatro anos da maioria absoluta socialista. São exemplos a Educação, a Agricultura e as Obras Públicas. Ambiente, Cultura e Trabalho e Solidariedade Social são as demais pastas entregues a ministros estreantes. É na Educação que José Sócrates espera conseguir atenuar os efeitos da passagem de Maria de Lurdes Rodrigues pelo Governo de maioria absoluta. Caberá a Isabel Alçada, antiga dirigente sindical e co-autora, com Ana Maria Magalhães, da colecção literária juvenil "Uma Aventura", a complexa tarefa de apaziguar a classe docente. Fenprof e FNE trataram, horas antes de o primeiro-ministro revelar a composição do Executivo, de vincular os partidos da Oposição a um compromisso político para a suspensão do modelo de avaliação de desempenho dos professores.
Quem se diz desde já "disponível" para uma "tarefa complexa" é o professor catedrático da Universidade de Évora António Serrano, que assegurava até agora a presidência do Conselho de Administração do Hospital do Espírito Santo, naquela cidade histórica do Alentejo. Serrano vai ocupar a pasta deixada vaga por Jaime Silva, um dos ministros mais contestados do Governo socialista. "Sou um servidor público, um gestor e naturalmente que estou disponível para esta tarefa complexa". Foi com esta declaração de intenções que o novo titular da pasta da Agricultura se apresentou, numa curta nota citada pela agência Lusa.
António Mendonça, antigo presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e doutorado em Economia, é o nome escolhido para a pasta das Obras Públicas, a braços com a provável reavaliação de grandes projectos defendida pela Oposição à direita dos socialistas. O novo ministro era até agora presidente do Centro de Estudos de Economia Europeia do ISEG, bem como coordenador científico do mestrado e do curso de pós-graduação em Estudos Europeus. António Mendonça foi também professor convidado da Faculdade de Direito, de Economia e Gestão da Universidade francesa de Orléans, da Universidade Federal Fluminense e da Universidade Federal de Paraíba, no Brasil.
Para o Ministério do Ambiente, José Sócrates escolheu Dulce Pássaro, engenheira química e vogal do Instituto Regulador de Águas e Resíduos. Ouvida pela agência Lusa, a nova ministra recusou alargar-se em comentários sobre o elenco do novo Governo socialista.
Para o Ministério da Cultura, a escolha recaiu sobre a pianista Gabriela Canavilhas, que transita da Direcção Regional da Cultura dos Açores para a Ajuda. Natural de Sá da Bandeira, actual Lubango, em Angola, completou o Curso Superior de Piano do Conservatório de Lisboa e licenciou-se em Ciências Musicais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Carlos Santos Neves/RTP
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